
Eu vôo sem parar, as pessoas lá embaixo olham para o meu preto que se destaca no céu, todos gritam meu nome: Olha o urubu! Trim, trim, trim, hora de acordar, droga! Eu não sou um urubu, aquele velho deve estar no sofá, cadê a minha calça preta? Meu sapato, um com cadarço outro não, eu lembro daquele dia que roubaram esse tênis, aquele usuário levando eles pelo cadarço, era tirar minha honra, sai planando como um urubu, meu bico era a mira, por um momento, todo o som do mundo parou, ficou apenas os meus movimentos, peguei o tênis e planei sem olhar para trás, pousei e vi que um sapato estava sem o cadarço, não quis botar outro, para deixar marcado meu ato de urubu, mas, ta na hora tenho que ir.
Tchau seu Neto! Hoje tudo foi chato nessa escola, não quero ir pra casa, vou passar na padaria e compro qualquer coisa, aquele padeiro me conhece, sabe até quem é meu pai, mas não olha em meus olhos ele deve me achar estranho, também (risos), quem pede café com pão de outro dia não deve parecer normal, vou para a minha colina, lá é meu lugar, e o padeiro? Que se dane! Os urubus comem coisas estranhas e são superiores a esse gordo cansado.
Aqui estou, na colina, no ambiente das reuniões, no salão de dança, vou para o centro, o topo, aqui eles podem me ver, posso ser o ponto central dos seus passos de dança, danço com eles, abro os meus braços, sinto que passam por mim, sei que querem que eu vá com eles, deito na colina quando o sol esta se pondo, espero a noite chegar é o momento que todos eles somem no escuro do céu, também queria sumir na noite, é na noite que o bêbado chega em casa, que a irmã drogada enlouquece e se perde em meio a fumaça. O pior é ter que sair da colina, ter de sair da realidade e descer da montanha de lixo, na verdade sou um urubu, o erro foi que nasci gente. Talvez tenha que entender os incompreensíveis humanos, para ganhar as asas, com as quais tanto sonho.
Casa, isto não é parecido com uma casa, na verdade eu moro em uma espécie de moradouro, nº 34, terceiro andar, estas escadas caindo, estas paredes sujas, que não lembram nem um pouco o céu onde eu deveria estar, pegar a chave para abrir a porta é como ter a escolha de abrir a porta do inferno, infelizmente é lá que estão minhas coisas. O velho do sofá pergunta aonde eu estava, não respondi, fecho a porta do quarto, ele bate e avisa que a drogada foi embora, vai se danar velho, eu não suporto essa voz se dirigindo a mim, tiro a minha roupa antes de deitar, fico nu, me sinto leve, sem roupa deve ser mais fácil voar, todas as noites terminam com o barulho do despertador, essa foi diferente, acordo com uma arma apontada para minha cabeça, minha irmã deve dinheiro a esses caras, ela sumiu na fumaça e eu aqui sentado no sofá enquanto eles discutem com o velho bebâdo, agora eles vão dar um fim em mim e no velho, mandaram eu descer a escada, não deixaram eu vestir nada, mandaram eu entrar naquele carro preto, aquele carro seria meu transporte para a morte, mas, não entrei, não tive medo daquela arma, não tive vergonha do meu corpo sem roupas, estava resolvido, vou correr mais rápido do que o vôo de um urubu, eles não vão me guiar desta vez, o sol ainda não nasceu, corro, corro, passo pela escola, pela padaria, pela colina, pelas lembranças, não vou ver mais o velho, nem a irmã, não agüento mais correr, urubus aparecem em meio a noite escura passam por mim, isto é um sinal, não posso parar, eles vão me guiar agora, mas, o caminho termina, me levaram até um penhasco, eles formam um círculo no céu, parece que chegou ao fim e raiou o começo, já sei que ser gente é viver a verdade, e a verdade das pessoas as leva pro fundo de um buraco, leva para o escuro, mas, não esconde as pessoas, deixando que sejam vistos como coisas sujas que são, não é essa a verdade que quero, quero a verdade dos urubus, que não possuem esse castigo que é poder pensar. Chego a beira daquela serra alta nada parecida com os penhascos da América do Norte, abro os braços e me solto do chão, para enfim ser um tão majestoso urubu.
Obs: Todo momento o leitor leu pensamentos da personagem, personagem que se afoga nos pensamentos. Poderia colocar como foi a vida do personagem como urubu, mas, urubus não pensam.